Individualismo: uma faca de dois gumes

Por Nogueira Sousa

individualismo

Uma grande parte dos críticos da modernidade veem no individualismo, nascido das revoltas liberais burguesas e do iluminismo, a fonte de todo o mal da modernidade. A ruptura com a tradição, com a sociedade, a família, a criação do Estado democrático de direito, o fim da monarquia e da aristocracia, o anticlericalismo, etc., seriam algumas das consequências do individualismo liberal.

Muitas desgraças da modernidade realmente vieram de tal fonte. A visão da sociedade como um mero aglomerado de indivíduos sob um contrato social, ou seja, uma glomerado de átomos, abriu brechas também para visões totalitárias de sociedade. O Estado moderno seria o Leviatã capaz de organizar a massa caótica de indivíduos em um projeto social. Logo, o Estado poderia de fato moldar as pessoas de acordo com seus objetivos. Ou então, o Estado estaria preso a modelos de democracias incapazes de agir frente a ameaças externas, como foi o caso dos Estados democráticos europeus sob ameaça da onda bolchevique, que deram lugar aos Estados totalitários que seguiam o modelo anterior acima citado.

Entretanto, a modernidade também trouxe muitas coisas interessantes, pois esta é com certeza a era mais criativa de todas, na qual foram feitas coisas impressionantes, uma exceção em toda a história, e talvez por isso que a encaramos como uma espécie de era de trevas, pois ainda estamos no caminho de compreender um fenômeno tão singular, pois como rompemos com as referências sólidas passadas da tradição, ainda estamos perdidos. Logo, o individualismo pode ser como uma faca de dois gumes.

Primeiro, se for um individualismo criativo, que visa libertar o homem das mordaças e do peso da massa, do moralismo e de instituições como a Igreja e Estado, então pode ser algo positivo. Os individualistas criativos podem mover grandes rupturas com a ordem vigente e, de fato, é disso que precisamos agora, uma ruptura com um modelo de civilização que não funciona mais, ou melhor, uma ruptura com a presente anti-civilização. Os individualistas criativos ousam subir muito além do mínimo denominador comum, ver além de bem e mal, de certo e errado, buscar soluções criativas. Quando eles se reúnem com outros individualistas criativos, vemos grandes movimentos políticos, filosóficos, religiosos, culturais, artísticos, etc. A história tem muitos exemplos: Platão e Sócrates foram vistos como figuras subversivas da ordem por romperem com alguns valores de suas comunidades – Sócrates foi mesmo condenado à morte – mas de qualquer forma, foram geniais. Cientistas medievais como Galileu tiveram que enfrentar toda a sociedade para realizarem revoluções científicas. O movimento romântico europeu realizou grandes obras artísticas e influenciou fortemente as humanidades. Os modernistas do início do século XX também foram exemplo de um individualismo criativo que buscou romper com a monotonia da arte no seu tempo, e também foram geniais. Ser individualista pode significar afirmar-se como um homem que busca se fazer homem pelos seus próprios feitos e iniciativa, em vez de ser simplesmente alguém que segue a massa.

Mas ainda há o outro gume: o individualismo de massa. Este é a face cruel do individualismo. É a forma que ele assume nas pessoas que querem que toda a sociedade trabalhe em seu favor, que o mundo gire a sua volta. Eles querem um ideal de mundo que esteja de acordo com todos os seus caprichos individuais e por isso se revoltam com a sociedade e o mundo em geral; pois ações têm consequências e há forças que estão além de nosso alcance, ou seja, chegam a se revoltar com a própria natureza (como vemos em movimentos esquerdistas que até mesmo negam coisas evidentes na natureza). Eles não conseguem tolerar que tais forças existam. Logo, eles se juntam a outros individualistas radicais como eles e formam a massa: um aglomerado de átomos, ou indivíduos, uma forma caótica que quer destruir tudo o que é civilização para rebaixar toda a sociedade ao mínimo denominador comum, pois se todos são medíocres, ninguém vai se elevar e eles não terão os seus egos individualistas feridos. É a mentalidade por trás de todos os movimentos de massa e de “minorias”.

Mas os individualistas de massa não conseguem criar nada de relevante e no final acabam sempre caindo nas mãos dos individualistas criativos, pois são estes que conseguem as respostas, já que estes entendem que, apesar de ser necessário romper com a sociedade e a massa às vezes, eles simplesmente não podem viver isolados de tudo, se não vão enlouquecer e se tornar depressivos suicidas, ou maníacos, ou sequer terão suas ideias concretizadas. Por mais que tenhamos gênios expressivos, eles servem sempre a poderes maiores. Os criativos entendem que existem forças muito maiores que lhes escapam o controle, que existem padrões, regras e leis que não estão lá arbitrariamente. Eles podem romper com muitas delas, mas depois de romper com elas, vão entender todo o seu sentido, por contraste.

Então talvez o caminho seja conciliar o individualismo, na sua forma criativa, com o entendimento de todos esses padrões, regras e leis, ou em outras palavras, uma Tradição com T maiúsculo. Um entendimento crítico e não uma mera questão de simplesmente aceitar o que é feito por “tradição” ou “conservadorismo”, mas de viver a Tradição e entendê-la. Assim poderemos construir comunidades orgânicas decentes, que, assim como uma árvore, são capazes de se adaptar aos diversos climas, estações e ameaças e conseguem crescer e cobrir com sua copa todas as plantas ao redor, sustentando um complexo e belíssimo aglomerado de seres, cada qual consciente do seu trabalho; em vez de construirmos sociedades democráticas burguesas débeis e decadentes, que se assemelham a um enxame de gafanhotos que, por se multiplicarem demais numa massa de insetos desfuncional, ficam sem comida e passam por diversos lugares destruindo a vegetação.

Não podemos simplesmente querer reverter a história e negar algo que não tem mais volta, precisamos nos libertar da massa e procurarmos soluções criativas, uma nova síntese.

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