Faça uma São Paulo real

Por Daniel Jur

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Os efeitos da tecnologia em uma sociedade desequilibrada são nefastos. Hoje em dia é vendido um “Netflix way of life”: A solução para um feriado entediante ou tempo livre é se afundar em séries intermináveis. Por ironia, as pessoas acham incríveis as séries e filmes que escancaram como elas estão domadas pela tecnologia, a própria crítica ao sistema virou um produto de consumo, virou grife, virou critério para a pessoa se dizer evoluída e “acima disso tudo”. No fundo, o capital está como sempre um passo à frente. Boa parte das pessoas conseguem compreender os efeitos nefastos de uma vida imersa em tecnologia e de uma existência relegada ao mundo virtual. O QUE ELAS NÃO CONSEGUEM É TOMAREM AÇÕES EFETIVAS PARA SUPERAR ISTO. A crítica está banalizada, de modo que qualquer um que se posicione contra o processo de “virtualização do mundo” corre o risco de parecer apenas mais um demagogo. Apenas mais um que enquanto está em uma subvida virtual aponta que entende o drama da coisa toda, e que consome camisas, canecas, bonecos e chaveiros do Clube da Luta, isso para mostrar que está acima da lógica de consumo.

Somente ações, práticas efetivas e muita disposição são capazes de alterar a realidade, todo o resto é maquiagem, são meros objetos seguindo um movimento de inércia, quem está em inércia ou está parado ou apenas reproduzindo algo. Reclamar e não ser proativo reduz as pessoas à alguém que vive murmurando sobre os problemas e nunca os enfrenta. Os que gastam energia criam algo, quem age produz, motiva, reinventa e consegue muitas vezes ir além de todo o sistema.

Este é um dos propósitos da Ação Identitária Paulista: operar mudanças concretas. Não se deve esperar um mundo perfeito para começar a agir e se engajar em algo. Não se deve imaginar que a vida só vai começar depois de uma sociedade de tal ou qual formato. Não podemos esperar uma mudança externa para levantarmos da cadeira. O simples fato de lutar contra algo, de ser uma força em ação, altera não apenas o social como sua própria vida. Dentro da Ação fazemos treinos de luta, trilhas, excursões, protestos, atos e produzimos conhecimento. Sim, as pessoas estão certas quando dizem que ainda falta um longo caminho para forjar sociedades tais como as que idealizamos, e isto só significa uma coisa, a luta deve ser intensificada. Por outro lado, quem toma parte desta luta altera sua própria vida, vive sem se subjulgar. Consegue formar dentro do caos das megalópoles algo como as “Zonas autônomas temporárias” delineadas por Hakim Bey. Estas zonas autônomas não apenas pressionam para mudanças sociais como permitem que exista DE FACTO uma sociabilidade e práticas pautadas na tradição, identidade, coragem, honra e companheirismo.

As zonas de sociabilidade das megalópoles são meros simulacros. Massas torpes humanas tirando selfies, com nenhuma identificação uns com os outros, com receio do contato com o outro. A Avenida paulista é um exemplo disso, quando está fechada só para pedestres trata-se ainda de uma SOCIABILIZAÇÃO FALSA, triturada por um estilo virtual de vida, no qual muitas das pessoas ainda tentam uma reeducação sobre como sociabilizar, estão curvadas pela aparência, pela lógica da disputa por atenção, por aparecer simplesmente para aparecer, a fama pela fama, o ego aumentado, porém praticamente vazio de significado. Este tipo de sociabilização se resume a uma foto no Instagram, ou seu nome em um copo do Starbucks e passar o tempo contando o número de “curtidas”. A maioria destas pessoas, no entanto, anseia por algo real e verdadeiro. Por um comunalismo há muito perdido e abandonado nas megalópoles como São Paulo. O telefone foi inventado para não ter que se comunicar por cartas ou por código morse, e agora tudo o que fazemos é escrever mensagens, sem parar. Escreve-se demais sem ter o que escrever, é uma maneira ineficiente de preencher o vazio, assim como fins de semana gastos em brigas online, netflix e grupos de whatsapp, é a tentativa de não se encontrar sozinho consigo mesmo, pois isso simplesmente escancara o quanto oca, frágil, insegura e triste a pessoa é, a busca constante por uma distração esconde a real situação das pessoas, que se enxergam em uma vida mesquinha, sem sentido e fútil. Sobre isso lembramos do poema de Raimundo Corrêa:

Se se pudesse o espírito que chora 
Ver através da máscara da face, 
Quanta gente, talvez, que inveja agora 
Nos causa, então piedade nos causasse! 
Quanta gente que ri, talvez, consigo 
Guarda um atroz, recôndito inimigo, 
Como invisível chaga cancerosa! 
Quanta gente que ri, talvez existe, 
Cuja a ventura única consiste 
Em parecer aos outros venturosa!

Por fim, quais são alguns caminhos reais para operar mudanças de facto em nós e na sociedade? Trata-se de apoiar associações de bairro, lutar pelo espaço público de onde se vive, se engajar politicamente, tomar espaços inutilizados ou destruídos e exigir seu uso e funcionamento, apoiar festas e costumes populares, clubes esportivos regionais, favorecer o pequeno comerciante local e incentivar eventos, encontros e a criação de espaços que impliquem em uma sociabilidade verdadeira, como já existiu na cidade de São Paulo e que a arquitetura faz lembrar no momento em que vemos algumas vilas, cortiços e algumas ruas sem saída que sobrevivem no meio arranha céus e avenidas (neste ponto vale a pena conferir os documentários sobre os bairros de SP, de tudo que se tinha e aos poucos sucumbiu à ultra urbanização). Trata-se aqui de criar uma outra pós modernidade possível, uma cidade não virtual e vazia, mas uma São Paulo Real, baseada na identidade, na comunidade e na raiz dos povos. Para tal, é necessário uma vontade inabalável e firme, e para aqueles que buscam um norte, a Ação Identitária Paulista está de braços abertos para somar esforços com os que estão dispostos a realizar mais do que uma mera reclamação no facebook.

Documentários sobre a história dos Bairros da cidade de São Paulo:

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