Por que os bandeirantes devem ser lembrados

Por Nogueira Sousa

Frequentemente defendemos a memória dos bandeirantes e de seu legado, especialmente após os recentes casos de vandalismo contra nossos monumentos. Desde algum tempo se tornaram rotina os ataques aos monumentos dedicados aos bandeirantes, e não só aos bandeirantes, mas a todos os monumentos que fazem referência a nossa história em geral. Há uma tentativa de apagar a nossa memória e recontá-la de forma conveniente a uma certa militância política que projeta preconceitos modernos sobre homens e povos que viveram há mais de 400 anos atrás.

Projetam sobre os indígenas uma imagem extensivamente propagada em escolas e pela mídia de um povo pacífico e homogêneo que foi exterminado por europeus fortemente armados e muito mais avançados tecnologicamente. Os preconceitos anacrônicos ficam bem evidentes quando vimos pixado no monumento ao Borba Gato em Santo Amaro as palavras “bandeirante, ruralista, assassino”. Aqui fica clara a ignorância daqueles que vivem a repetir aos quatro cantos o lema “vá estudar história”, pois como que um bandeirante de 400 anos atrás pode ser um ruralista? Sendo que a ideia de ruralista é algo de nossos tempos, isto é, um proprietário de grandes latifúndios, com capital para gerar uma monocultura de alta produtividade e que exerce pressão sobre pequenos proprietários de uma agricultura de subsistência de baixa produtividade. Não era o caso no tempo dos bandeirantes, até porque a produção agrícola de alta produtividade sequer era o objetivo, como foi com a produção de cana no nordeste por exemplo.

Ainda, a projeção de visões modernas sobre homens antigos leva a distorções. Acreditam que os indígenas fossem “nobres selvagens”, com uma sociedade igualitária, com valores progressistas e que tudo isso foi destruído com os europeus com seu moralismo cristão e reacionário e sua sede capitalista, sendo que o capitalismo sequer estava desenvolvido nesse tempo. Primeiro que ao olharmos a estrutura das sociedades indígenas, por mais primitivas que pareçam aos olhos modernos, veremos que elas são bem mais complexas que a narrativa do nobre selvagem e que seus costumes não são nada igualitários e progressistas, pois também há divisões hierárquicas e uma busca pela conservação de seus valores morais. Além disso, o que os modernos esperavam? Que os bandeirantes saíssem pelas tribos pregando ideais de liberdade, igualdade e fraternidade?

Portanto, devemos deixar para trás preconceitos modernos e visões anacrônicas tanto sobre os bandeirantes quanto sobre os indígenas. Na verdade, os indígenas eram tão belicosos e agressivos quanto os europeus que chegavam, é conhecido que as tribos praticavam frequentemente guerras entre si para alimentarem um costume tradicional de fazer prisioneiros e sacrificá-los de forma ritual, com a posterior prática de canibalismo. Podemos até mesmo comparar a queda dos povos indígenas com outras conquistas históricas, como a conquista da Gália por César: os indígenas, assim como os antigos povos celtas, estavam tão imersos em guerras e divisões internas que foram incapazes de se articularem em uma forma política que fosse capaz de resistir à chegada dos Europeus. Inclusive, muitas tribos se aliaram aos europeus para conseguirem vantagens nas suas guerras contra outras tribos. Até hoje o cacique Tibiriçá é lembrado como um dos fundadores de São Paulo, pois foi ele que tornou possível a aliança de sua tribo com os colonos portugueses. Um deles, João Ramalho, conhecido como o maior patriarca dessas terras, tinha tantas mulheres índias e filhos mamelucos que os índios se viam obrigados a deveres familiares com os portugueses. Devemos lembrar também que era costume entre os índios que os homens pudessem ter várias mulheres.

Logo, já se formava algo de especial na capitania de São Vicente, um amalgamento entre dois povos, o índio nativo e os ibéricos que chegavam. Há documentos já da época que mostram como os paulistas, já assim chamados, eram um povo à parte, um tanto rebelde, que não obedecia muito bem as ordens da coroa portuguesa. Os paulistas já se formavam como algo único, que não podia ser nem mais indígena e nem mais europeu, mais ainda quando pensamos nos mamelucos filhos das uniões entre europeus e indígenas.

Entretanto, a vida a colônia ainda era difícil. Propaga-se a imagem de um europeu desembarcando com canhões e armas e exterminando indígenas. Nada mais impreciso. A viagem cruzando o atlântico era difícil e o que se conseguiria na nova colônia era incerto. De fato, a coroa portuguesa não dava a prioridade à colônia de Santa Cruz no início, estava mais preocupada com outras conquistas, como a Índia. Os europeus que aqui chegavam tinham logo que enfrentar condições de pobreza e dificuldades e seria um empreendimento quase impossível os poucos europeus que aqui chegavam conseguirem exterminar as diversas nações indígenas nativas que conheciam o território muito melhor que eles. Assim, podemos afirmar que sem o auxílio dos indígenas, os bandeirantes jamais seriam capazes de realizar o grande empreendimento das bandeiras.

As bandeiras eram compostas ainda em grande parte por indígenas e mamelucos. Mandavam-se batedores armados à frente para fazer o reconhecimento do terreno e estes eram certamente pessoas que conheciam bem o território, ou seja, indígenas. Houve bandeirantes famosos que eram mamelucos, como Manuel Preto, e os bandeirantes falavam muito mais uma variação da língua indígena, que ficou conhecida como língua geral paulista, que o português. O português era restrito a ambientes administrativos. Isso só foi mudar mais tarde com a imposição do uso do português pelo Marquês de Pombal.

As bandeiras levaram as fronteiras da província de São Paulo a lugares distantes. Estendeu-se desde o Sul do Brasil até o centro-oeste, como Mato Grosso e Goiás, chegou ainda ao nordeste e ainda tinha partes do sudeste, como Minas Gerais. Os bandeirantes eram movidos pela busca de metais preciosos e também pela necessidade de mão-de-obra escrava para a colônia, mas onde chegavam, precisavam estabelecer arraiais e habitações, daí nasceram cidades e, o mais especial, uma cultura, um povo único e especial no mundo, o habitante típico do interior paulista, de Mato Grosso, de Goiás, do sul de Minas e do norte do Paraná, ou resumidamente, o caipira. Um povo com traços culturais bem evidentes. Coisas como a moda de viola, o dialeto com (marcado especialmente pelo r retroflexo), a catira, as comidas típicas, as vestimentas, costumes, tradições… todas heranças do fenômeno das bandeiras.

Daí a importância de lembrarmos dos bandeirantes, pois as bandeiras foram o nosso mito criador e os bandeirantes foram aqueles que construíram as fundações de nossa civilização, que deram nascimento a algo único no mundo, que foram capazes de realizar a síntese entre o europeu e o nativo. Tentar apagar os bandeirantes de nossa memória equivale a atacar o que somos e a destruir as nossas raízes de forma a esquecermos de onde viemos e quem somos. E isto é muitíssimo interessante a uma era que busca cada vez mais destruir e apagar as identidades dos povos em nome de um multiculturalismo falso que visa apenas a criação de um ser-humano individualista guiado pelo materialismo e consumismo de um mercado global.

Alguns ainda argumentariam que os bandeirantes devem ser “desconstruídos” e apagados de nossa memória, que deveriam deixar de ser lembrados como heróis, pois promoveram um genocídio e extermínios. Primeiro que, como já dito acima, os índios tiveram papel fundamental no movimento das bandeiras, sem eles, os bandeirantes não poderiam ter realizado a sua obra, portanto é falso acreditarmos que as bandeiras foram obra dos europeus sozinhos. Dessa forma, não houve um genocídio dos povos indígenas promovido por europeus nas bandeiras, pois as bandeiras eram compostas na maior parte de mamelucos e índios. Movimentos de expansão e conquista aconteceram vários na história e a tendência é que os povos que são conquistados por um poder crescente absorvam a cultura desse poder e a assimilem, é o que aconteceu com os diversos povos que foram conquistados pelos romanos por exemplo e que hoje possuem muito pouco que os faça lembrar de suas raízes mais longínquas na história. O que está feito está feito e nada pode mudá-lo. Ainda, que povo não nasceu sobre lutas, sacrifícios e sangue? Não há nenhum povo no mundo que se assemelhe a ideia de “nobre selvagem” propagada pelos modernos defensores dos indígenas, que acreditam que estes eram povos pacíficos e passivos. Na verdade, soa até degradante achar que os antigos indígenas fossem tão inocentes e incapazes de resistência, isso contraria até mesmo os próprios mitos indígenas com seus diversos heróis e guerreiros.

Portanto, lembrar dos bandeirantes é lembrar de toda a luta realizada, de todos os sacrifícios e todo sangue derramado que tornaram possível o nosso nascimento como nação. É lembrar de que o que temos hoje não nos caiu do céu, não apareceu do nada, mas que foi resultado do esforço de gerações e gerações. Lembrar dos bandeirantes não significa que queremos a destruição dos povos indígenas, mas é lembrar quem nós somos pelos nossos símbolos. Da mesma forma podemos admirar os símbolos dos povos indígenas e lembrar de quem eles foram na história, e também podemos admirar os símbolos dos povos europeus, pois, como já dito, não somos nem europeus e nem indígenas, mas tiramos nossas raízes de ambos os povos.

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