Por uma militância nacional iconoclasta

Por Nogueira Sousa

Líderes inspiram. Em todas as sociedades humanas vemos a figura do líder, é uma tendência natural à organização. Mesmo sociedades que temem a figura do líder e criam mecanismos para a sua prevenção, como era a antiga sociedade celta, ou mesmo hoje no atual modelo de democracia liberal, a figura do líder sempre ascende em momentos de crise: é alguém capaz de tomar as rédeas de seu povo e guiá-lo numa marcha.

Porém, parece que em nosso caso brasileiro, talvez por sermos, de certa forma, herdeiros de uma tradição muito mais antiga de personificar todo um povo numa figura de liderança, os anseios por um líder criam um tipo de messianismo e conformismo que nos impede de dar passos adiante. Pelo menos em nosso meio político dissidente, não é difícil encontrarmos pessoas constantemente usando fotos, imagens, citações e adorando alguma figura do passado que lhe represente um herói. É como se essa pessoa estivesse esperando pelo seu retorno. Sebastião voltará.

kataguiri2
“Nosso salvador virá armado contra o estado!!!!”

Não que tenhamos que abolir definitivamente os ídolos, isto é, as figuras heroicas do passado que nos inspiram, mas deveríamos parar de inflar suas imagens de modo que estejamos sempre vivendo no conformismo. Temos que ser mais iconoclastas, se quisermos uma alternativa identitária e nacionalista viável para nosso futuro, portanto devemos “filosofar com o martelo” e promover o nosso “crepúsculo dos ídolos”, de forma a pelo menos sermos mais autocríticos e tomarmos a iniciativa. Eis algumas razões para isso:

– Primeiro que a adoração a líderes é ridícula e leva ao conformismo. Sempre que algo de errado acontece, pode-se usar a figura de líder como bode expiatório, dessa forma, a autocrítica das ações de cada um jamais será presente. Na verdade, dificilmente se discutirá os valores e as ideias, se são boas em si mesmas, mas ficaremos limitados a juízos morais sobre as ações de tais líderes. Ainda mais num meio como o nosso, formado por poucas pessoas, isoladas e que têm até dificuldade em comunicar ideias, mesmo que usando a internet, onde somos monitorados o tempo todo.

– Segundo que isso leva os nacionalistas em geral a acreditarem em figuras que pareçam radicais, figuras como Bolsonaro e Olavo de Carvalho, que são vistas como um tipo de “salvador”, um homem que será capaz de realizar o “despertar da nação”, quando na verdade essas pessoas não passam de desinformantes, carreiristas e oportunistas que sabem usar os anseios da massa como trampolim para as suas ambições pessoais. Além de que não existe “despertar nacional” espontâneo, toda grande revolução é preparada previamente, por anos de esforço, por uma elite política. Uma nova figura ascendente que representa o messianismo dissidente é a de Donald Trump, que apesar de ter soltado declarações interessantes, ainda não realizou nada, ainda não chegou numa posição de real poder. Talvez Trump será tão decepcionante para nós como um líder de esquerda que ascende ao poder e faz tudo diferente do que dizia que faria aos seus eleitores esquerdistas.

– Terceiro que isso leva a construção de mitos inflados. Não aqueles mitos arquetípicos que guiam grupos de pessoas, como o mito do deus que mata o seu pai, toma o seu trono e inicia uma nova era (Zeus e Cronos), algo que inclusive deveríamos fazer: matar os nossos ídolos passados, muitos dos quais falharam, e iniciarmos umas nova era. Mas na verdade, criam-se fantasias escapistas e distorções de realidades. Por exemplo, aqui no Brasil não tivemos nenhum líder que chegasse a níveis tão míticos como houve na Europa no século passado, mas parece que querem escolher aqueles que foram os mais razoáveis, ou menos piores, para pintá-los de figuras míticas e heroicas. Não houve nenhuma figura aqui que conquistou o estado e conseguiu utilizá-lo para criar algo tão impressionante e mítico quanto os regimes do século passado que foram capazes de desafiar a ordem globalista liberal e o comunismo ascendente, mas na tentativa de se filiarem a uma “tradição” ideológica, ou melhor, mitológica, de tentarem ser os mais fiéis e legítimos herdeiros de um trono inexistente, romantizam períodos anteriores de nossa história que não tiveram nada de muito glorioso: o Brasil Império, o Estado Novo, a Ditadura Militar, etc. Daí podemos compreender aberrações como pessoas que se julgam como seguidoras daquelas mesmas correntes ideológicas do século passado e que possuem ao mesmo tempo um fetiche por uma figura como Getúlio Vargas, mesmo sabendo que este contribuiu, e muito até, para a destruição dessas mesmas correntes no campo ideológico. Ou então aqueles que demonizam um modelo de regime, como monarquistas que demonizam a república e pensam que na figura do monarca estará a solução para tudo. Mal conseguem fazer uma crítica de si mesmos, do conservadorismo caricato e messiânico que pregam, pois tudo que há de mal está na república.

– Quarto que se há uma coisa que sempre atrapalha todos os esforços de gente séria é a síndrome do “quero-ser-líder”. Há sempre aquele que, inspirado pelos seus ídolos, e conduzido por um desejo adolescente por popularidade e “respeito”, vê-se como um líder maquiavélico e ambicioso que faz de tudo para alcançar suas ambições, mesmo que suas ambições se resumam a ter poder sobre um grupelho de amigos que se reúne aos fins de semana para fazer algum tipo de ação, ou mesmo para tomar cerveja.

E como podemos fugir de tudo isso?

Pelo menos nesse ponto poderíamos aprender muito com os anarquistas…

Não negamos a importância natural dos líderes, porém estes devem ser apenas representantes temporários, gente capacitada e com conhecimento para exercer a sua posição. Por isso:

Desçamos o martelo! Matemos os fantasmas do passado! Tomemos nós mesmos as rédeas do tempo!

Morte aos líderes ambiciosos, aos aspirantes a mitos, aos egocêntricos, aos carentes de atenção!

Melhor que um líder conduzindo uma “massa” é uma elite política revolucionária composta por militantes autônomos, senhores de si mesmos, que serão os responsáveis por propagar os seus ideais e organizar novas gerações de soldados políticos para o futuro. Se defendemos uma reorganização identitária de nossa sociedade, baseada em tradições, uma visão de mundo holista e em deveres e valores como honra e virtude, devemos incentivar o tempo todo entre nós mesmos atitudes que demonstram autonomia e virtude, não um mero rebanho seguindo um pastor, pois dentro de uma visão holista, de deveres, o homem deve estar consciente de seu papel no mundo.

Por isso, confiem na sua própria força, inteligência e vontade. Troquem os seus ídolos por um ideal, uma vontade, um espírito. É o esforço coletivo somado que concretiza as coisas. Mesmo os líderes passados que admiramos não seriam nada sem o esforço dos milhões que estiveram ao seu lado.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s