Como a Massa destrói todas as coisas boas

Por Brett Stevens
Massas

O primeiro segredo das massas é que ela nunca é especial. É uma tendência humana universal que destrói todas as coisas, como a preguiça ou o narcisismo. E não é necessário que ninguém a invente, pois ela já está inventada em todos nós. É um abismo inerente à inteligência. Alguns podem chamá-la de arrogância.

A Massa é o que acontece quando indivíduos, decidindo agir em seus próprios interesses, se juntam para tornar um tabu qualquer regra que não seja a de que “o indivíduo faz o que ele quiser”. Isso ocorre em estágios graduais e pode acontecer em qualquer nível de política, família, sociedade, cultura ou qualquer outra forma de tomada de decisões.

A chave para isso é um paradoxo. “Anarquistas, uni-vos!” não faz sentido para a maioria das pessoas (mas sempre fez sentido para mim; se você quer mudar o mundo, você terá que mudá-lo em grupo, mesmo que defenda a abolição de controle de grupo). Os “massistas” são individualistas radicais que em um grupo apenas usam a culpa para constranger outros a se renderem a eles.

Todo mundo concorda” é uma das mais poderosas afirmações em qualquer língua. Ela vem junto com a noção individualista de ser vitimizado pela minha incapacidade de realizar meus desejos individualistas. Ambas são movimentos passivo-agressivos feitos para te colocar na defensiva por fazer oposição a uma ideia ilógica.

Suponha que eu e mais dez amigos decidimos que gostamos mais da sobremesa que do prato principal e que queremos trocar os dois. Isto é, você come metade de um bolo para o jantar e depois come um minúsculo pedaço de bife e batatas de sobremesa. Alguém de fora vem a nossa comunidade e nos vê no restaurante local comendo dessa forma. “Isso é terrível para vocês!” ele diz. Um de nós se levanta e pergunta porque ele está nos oprimindo. Ele quer apenas comer bolo na janta, não vê? O que tem de errado com isso? Prove que isso é ruim. Um outro se levanta e diz-lhe que todo mundo aqui faz isso e que faz perfeito sentido. Agora ele está na defensiva; o fardo da prova está sobre ela para provar que o que é normal é de alguma forma correto. É assim que a Massa funciona. (Eu omiti a parte que damos uma grande quantia de dinheiro a um doutor alcoólatra e a dois pesquisadores barbudos para provarem que a “ciência” afirma que bolo na janta não é apenas legítimo, mas “surpreendentemente” saudável.)

Há uma razão para as massas estarem cobertas de ironia. É a tendência de tomar aquilo que não é normal, com o normal sendo definido como “o que geralmente funciona”, por razões que não possuem nada a ver com praticidade. O individualista radical não se preocupa com as consequências de suas ações na sociedade em larga escala. Ele quer o que ele quer; ponto.

A Massa começa a trabalhar por diversos princípios gerais: primeiro, para se fazer aceita por todos, empreende uma guerra contra os próprios padrões. Isso significa pedir pela igualdade radical de todas as pessoas, o que lhe atrai uma audiência que começa das posições mais baixas da sociedade: os perdidos, os viciados, os confusos, os perversos. Eles podem ser ou não ser ricos, mas o que os une é a degeneração e a vergonha. Então eles empreendem uma guerra contra os padrões que permitem que a degeneração seja notada e que a vergonha seja sentida. O seu objetivo é o pluralismo: legalizar quaisquer comportamentos sem qualquer padrão e reforçá-los através da noção de que o pluralismo e a igualdade são uma justiça maior que os padrões.

Aqui é onde as coisas ficam confusas: o objetivo da Massa é substituir todas as funções sociais com a sua nova ideologia. Para isso é necessário que instituições como a família, a aristocracia, as castas e a religião, e mesmo os ritos de infância, sejam substituídos pela própria Massa. Por não possuir voz, a Massa cria um canal através do governo representativo, que é qualquer governo que se curva a um grande número de pessoas que estão se agitando por ou contra algo. Essa é a chave da democracia; não se trata da “voz da maioria”, mas do fato que qualquer ultraje pode unir gente o suficiente para votar a favor ou contra algo. Quando um número suficiente de membros da Massa começam a se agitar por um problema, eles formam uma “mentalidade de colmeia” que fiel ao seu nome gera um ruído ou um zumbido que reforça as visões dos seus membros até que eles estejam todos repetindo exatamente o mesmo meme ou mantra.

O governo representativo é receptivo à mentalidade de colmeia, pois teme que os votos perturbem o equilíbrio. Para uma democracia, o normal é que quando os dois lados – realistas contra idealistas – estejam em equilíbrio. Isso cria um equilíbrio de compromissos que é totalmente ineficaz para solucionar problemas reais, mas permite ao governo crescer e solidificar a sua posição, o que faz sentido, pois o governo é um comércio e assim faz o que qualquer comércio busca fazer, que é se fortalecer, se diversificar, construir aglomerados de receita, etc. O problema costumeiro com o comércio é que mesmo um pequeno grupo pode perturbar o equilíbrio se uma mentalidade de colmeia é formada, assim o governo acaba sendo um servo, não dos sentimentos da maioria, mas da atividade daqueles poucos determinados (ou, para os realistas: dos obsessivos).

Os massistas gostam desse tipo de governo, pois são individualistas radicais. Individualistas radicais querem padrões sociais zero, o que significa que o que eles realmente querem é a capacidade de destruir qualquer padrão proposto. Se tudo que é necessário é que eles e algumas centenas de amigos comecem a zumbir como zangões frenéticos rejeitados e assim conseguir a avalanche social necessária para destruir os padrões, então isso tudo é ótimo. É mais fácil do que qualquer outra coisa, pois não há a imposição da realidade, não há sábios anciãos e não há capacidade para impedi-los. Se qualquer um se opõe a isso, eles começam a gritar que são oprimidos e vitimizados pelo tabu de comer bolo na janta e acusam os seus oponentes de serem fascistas/absolutistas.

Para manter a Massa de individualistas, uma religião ou ideologia deve ser criada, uma em que todos sejam aceitos. Em termos políticos isso significa que todos são iguais e todos têm o direito de perseguir qualquer noção que eles achem certa para eles (pluralismo) e também que todas as diferenças entre as pessoas devam ser abolidas, já que estas são impedimentos para a igualdade. Portanto, eles se opõem a fronteiras, às diferenças de sexo e qualquer outra coisa que cheire a um padrão que diz o comportamento x é aceito, mas o comportamento y não é. A ideologia não cria; ela destrói aqueles que tentam insistir que a realidade é consistente e assim devemos nos adaptar a ela e adotar regras que refletem as suas construções consistentes. A ideologia possui um objetivo, que é libertar o indivíduo das regras usando a culpa, vergonha, agressão passiva e dissonância cognitiva da Massa e a fraqueza relativa daqueles que usam o senso comum para opô-la.

Mas por que é tão difícil se opor à Massa? Pois você não tem um problema. A Massa está preocupada com os pedaços tangíveis, desconstruídos e isolados da realidade como “casamento gay” ou “maconhize a legaconha”. Não está preocupada com “restaurar o senso comum” ou “vamos experimentar a realidade para uma mudança!” ou outros projetos amplos e sensatos de transformação da sociedade. Estes são, de fato, o seu anatema, pois o objetivo da Massa é desconstruir qualquer pensamento complexo em pequenos problemas dos quais ela possa reclamar que são opressões aos seus membros, criar uma mentalidade de colmeia e obliterá-los. Ela nunca toca na questão “que tipo de sociedade queremos”, que é a questão inerente à tarefa de informantes baseados na realidade. Em outras palavras, aqueles que se opõem à Massa possuem muitos problemas enrolados em uma simples pergunta, enquanto a Massa sempre quebra as questões em vários pedaços para tratá-los como problemas, descascando camadas de uma cebola para desconstruir a própria sociedade.

Como resultado, a Massa procede mais como uma infecção, em vez de revolução, apesar da sua primeira metáfora ser uma revolução, pois proporciona um objetivo que parece saudável para as pessoas. Primeiro, ela começa na periferia, injetando dúvidas a respeito da validade das crenças. “Com certeza nem todos os assassinos querem matar”, eles dizem, trocando o problema de como remover ameaças à sociedade por um julgamento pessoal sobre a pessoa envolvida. É assim que os individualistas radicais trabalham; para eles, tudo é pessoal e tudo é uma questão de vitimismo imposto por uma sociedade e os seus padrões. Eles não querem saber se o assassino é uma ameaça. Eles se preocupam apenas se conseguirão argumentar para inclui-lo no seu grupo como um todo. Essa mentalidade cancerígena faz a Massa se espalhar enquanto ela engole qualquer um com alguma disfunção ou má sorte, porque tais pessoas estão sempre procurando alguém para culpar pelos seus problemas. Quanto mais pessoas encontra, mais se expande. Ela argumenta em sentido contrário da sua condição para uma causa alternativa, que eles não são disfuncionais ou azarados, mas que eles são vítimas de uma agenda organizada para impor padrões sobre as pessoas e que esse é o processo que causa todo o sofrimento e falhas humanas.

Apelando à autopiedade e ao desejo de ter um bode expiatório, a Massa se espalha. Quando ela descascou camadas o suficiente de uma cebola até chegar ao núcleo da sociedade, ela cria uma mudança fatal: instala tabus no coração da sociedade que impedem as pessoas de impor a realidade sobre a Massa. Esse sempre foi o seu objetivo e, em vez de um subterfúrgio, o que ela faz é agir de forma totalmente consistente. Sempre destruir os padrões. Sempre enfatizar o indivíduo. Enfatize o vitimismo. Culpe a sociedade por nossos problemas. E assim vai. Quando ela chega ao núcleo, cria uma série de regras soviéticas: todos são iguais e qualquer outra ideia é blasfêmia; não existem fronteiras e sexos e todos que embaçam essas linhas divisórias são bons; se alguém se erguer acima dos outros, é injustiça; coloquem todos no mesmo nível, force a igualdade em nós e seremos todos iguais. Estas normalmente se manifestam em falas e códigos de comportamentos em nível social mais do que as regras do governo.

Como uma maneira de suprimir a dissidência, a Massa cria uma série de “inimigos de estimação”: consumismo, poluição do meio ambiente, condomínios fechados e outros atos insignificantes de rebelião. Eles gostam de criar pequenos portos seguros porque eles lhe dão uma forma inofensiva de expressar a sua insatisfação. Se você está com raiva de nós, vá comprar um carro novo! Sim, é isso mesmo! A piada cai sobre você, pois você acabou de usar uma grande energia, que poderia ser dedicada a uma ação significante, para algo inútil. É como uma grande pegadinha. Uma das suas maiores objeções é ao classismo, racismo e sexismo. São coisas ruins porque criam diferenças entre as pessoas, o que frustra a visão de igualdade universal dos individualistas radicais. Entretanto, elas também são alvos tentadores porque atraem os dissidentes para comportamentos socialmente rejeitados, o que os marginaliza e os faz impotentes. Se você se pergunta por que a sociedade adora quando fundamentalistas religiosos, neonazistas e protetores dos animais fazem manifestações, é porque é o momento dos “dois minutos de ódio”, nos quais os dissidentes saem e interpretam o drama que a propaganda oficial diz que interpretarão, e as pessoas gritam contra eles e todo mundo vai para a casa torcendo para o seu próprio time, mas o ponto essencial disso é, mais uma vez, que a narrativa imposta pela Massa parece ser verdade por causa dos eventos ocorridos. Em vez de criar dissidência, tais manifestações apenas aumentam as forças contra a dissidência.

O grande sonho massista de tornar todos iguais demanda que os fortes sejam obrigados a ajudar os fracos, que os padrões sejam abolidos, que as fronteiras nacionais sejam destruídas, que as diferenças entre as pessoas sejam apagadas e por aí vai. Qualquer um com um mínimo de senso comum repudia essa ideia e se opõe a ela, mas a Massa o derrota desconstruindo um princípio complexo em vários problemas pequenos expressados por uma equação binária de opressão-vitimização ou o seu oposto. O grande fator é que eles ganham na demografia, porque para cada pessoas que sabe da diferença entre uma proposição realista e uma que só serve para agitação, há milhares de “idiotas úteis” que não sabem e não se preocupam com nada, mas ficam de olhos brilhando com o pensamento de que talvez elas possam conseguir poder pessoal se tornando parte da Massa e, no fim de tudo, conseguir o que elas não conseguiriam sozinhas. (Normalmente, é a riqueza daqueles que com persistência, obediência, gênio ou sorte chegaram onde o massista não chegou).

Grandes sociedades não são conquistadas; elas conquistam si mesmas. Na ausência de um grande objetivo, elas olham para dentro, o que encoraja o comportamento típico de olhar para o seu próprio umbigo e de vitimismo que estimula a Massa. Porém, a essência da Massa sempre será o individualista radical, que quer tirar vantagens da sociedade sem ter obrigações para com ela. Um individualista radical é basicamente um anarquista que gosta de lojas de conveniência e uma polícia que age rapidamente quando seu iPhone é roubado. A tarefa deles então é como conseguir tais benefícios sem ser forçado a disciplinar o seu comportamento para o tipo de comportamento que faz uma civilização ser organizada, orientada por valores e elevada (não progressista); estas são o único tipo de civilização que desenvolvem funções mais altas, como o estado de direito, a higiene, etc. E assim escapam dos níveis de disfunção de terceiro mundo, como crime, pobreza, corrupção, sujeira e desordem que são o estado normal da humanidade. Como resultado, elas aparecem com um tipo de lógica contra a própria lógica e a usam para ganhar poder e dominância.

Você, o cidadão comum, está provavelmente se perguntando, “Por que eu deveria me preocupar? Eles estão fazendo o que eles querem e eu estou fazendo o que eu quero.” A primeira resposta é que o que eles estão fazendo logo destruirá a sua capacidade de fazer o que você faz, pois destruirá as construções internas da sociedade, assim a sua sociedade deixará de ser de primeiro mundo para entrar no terceiro mundo e logo você estará lutando em uma distopia apenas para conseguir um pedaço de pão. A segunda e mais realista resposta, é que quem você é depende do seu ambiente. Se você permitir pessoas loucas tomarem o seu ambiente, você, lentamente, também ficará louco e todas as coisas boas em você – honestidade, inteligência, honra, gentileza, compaixão, sabedoria – se tornarão traços que agirão contra você mesmo, porque tais traços são contra a loucura. Isso significa que você não será nada além de mais um corpo quente pronto a seguir as instruções para conseguir dinheiro, e tudo que forma a sua personalidade e alma será esquecido.

Artigo originalmente publicado em Amerika.org

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