Mundocentrismo

Por Nogueira Sousa

 

Diz-se que o Brasil faz parte de uma posição periférica no mundo, isto é, está longe do centro mundial do progresso, do primeiro mundo e dos avanços tecnológicos, econômicos e humanos. Alguns ainda dizem que o Brasil ocupa tal posição periférica por ter sido colonizado por um outro país também periférico, Portugal, que historicamente resistiu a ondas históricas de revoluções e novos ideais. Daí o porquê do Brasil ser um país de “terceiro mundo”, pois herdou a característica conservadora de resistir às novidades. Em parte podemos dizer que Portugal realmente tardou a ser alcançado pelos ventos da Revolução Francesa e pelos seus valores liberais e humanistas, ficando preso ao catolicismo e ao tradicionalismo medieval. Por outro lado, a ideia de que um país seja periférico é problemática, pois se dizemos que há uma periferia, implicamos que há um centro e o problema está na definição desse centro. O que o torna um “centro”?

brasil centro
Primeiro, devemos levar em conta que o planeta é um globo e um globo não possui um centro ou periferias, e mesmo que fosse uma outra forma geométrica também não poderíamos definir um centro muito bem, portanto a visão de um centro do mundo depende de um ponto de vista de um observador e das suas ideias. Dessa forma, podemos chegar a conclusão de que a narrativa histórica de que o Brasil ocupa uma posição periférica é uma narrativa que tem como ponto de vista uma civilização que não é a nossa, mas de uma civilização que adotou os valores liberais e humanistas da modernidade e que se vê no centro do progresso da civilização ocidental, portanto a ideia de que ocupamos um lugar periférico é mais imposta que adotada por nós, pois ainda hoje os valores de progressismo ocidental encontram forte resistência dentro de nossas fronteiras. O que leva às vezes a grandes protestos e à ascensão de figuras políticas que se impõem firmemente como defensores de valores tradicionais, da família e dos costumes.

Podemos fazer uma comparação com um indivíduo. Um indivíduo se enxergará como o centro de seu mundo. Entenderá o seu ambiente, captará as informações e as filtrará de acordo com as suas vivências e seus valores. Porém seu ambiente, sua vivência e seus valores são compartilhados por diversos outros indivíduos que estão mais ou menos próximos, que fazem parte da sua família, do seu bairro, cidade, povo e assim sucessivamente até chegarmos na comunidade derradeira da humanidade.

Logo, os diversos indivíduos que fazem parte de uma coletividade com valores em comum constituirão um sujeito social, como uma comunidade religiosa, um povo, uma etnia, uma nação, etc. Dessa forma, podemos entender que esse sujeito social, e consequentemente todos os seus membros, verão o mundo a partir de um ponto de vista específico e filtrará as diversas informações recebidas de acordo com seus valores e vivências.

Assim, entendemos que tais sujeitos não compartilham dos mesmos valores que outros e, portanto, ideias como progressismo, humanismo, liberalismo, etc, podem não fazer sentido ou não ter importância alguma para outras comunidades. Como por exemplo, uma comunidade indígena isolada na Amazônia, que enxergará o mundo a partir de seus valores religiosos e seus costumes.

Do ponto de vista ocidental, costuma-se olhar para a história como um contínuo progresso, especialmente a partir do nascimento da era moderna, em que o mundo emergiu de uma era medieval de trevas e escuridão para uma era de luz e humanismo. Dessa forma, a noção de tempo tem um papel importante, pois nós ocidentais medimos nosso progresso através do tempo. Datas como o nascimento de cristo, as revoluções burguesas e as grandes guerras têm um papel importante na mentalidade coletiva e são marcas de grande avanços históricos do ponto de vista moderno.

Porém ainda existem o mundo ocidental e o mundo oriental, além de outros mundos, e tais marcações de tempo e valores não fazem sentido para outros povos. Isso se evidencia claramente nos diversos argumentos de que “em pleno século XXI as pessoas ainda fazem/dizem x…”.

Para as civilizações islâmicas, hindu, orientais ou diversos outros povos do mundo, datas como as citadas acima não têm importância alguma, pois tais civilizações veem o tempo de uma forma diferente. Algumas de uma forma cíclica, outras também de uma forma linear, mas com marcações diferentes. Além de que os valores bases dessas civlizações contrastam com os nossos. Por exemplo, enquanto o ocidente moderno se baseia no secularismo e democracia, há civilizações que se baseiam sobre a religião e tradição. Dessa forma, temos um grande contraste, pois aqueles valores são vistos como melhores e modernos, enquanto estes são retrógrados e arcaicos do ponto de vista ocidental. Daí entendemos melhor o porque da visão comum de que tais povos são primitivos e bárbaros e de que nossos valores de democracia, secularismo e liberdade devem ser levados até eles. Tal ideia pode ser perigosa, pois com ela pode-se justificar políticas de intervenção militar e assimilação cultural de ondas migratórias massiva, como acontece atualmente na Europa, em que massas de refugiados das guerras incentivadas por potências ocidentais no oriente médio fogem para a Europa. Com essa visão de superioridade cultural, surgem ideias de que os imigrantes aceitarão sem resistência os valores superiores da civilização ocidental e serão assimilados e integrados ao povo nativo, abrindo mão de sua cultural original para adotar uma nova.

Porém o mesmo pode ser dito do lado contrário, que para alguns povos o mundo ocidental vive mergulhado nas trevas e precisa ser alcançado por uma visão religiosa específica, como no caso islâmico. Daí entendemos o choque de visões de mundo que leva à violência e ao preconceito entre pessoas de sujeitos sociais diferentes. Os imigrantes vindos de um contexto cultural em que se valoriza fortemente a religião poderão ver como uma ameaça a sua identidade a imposição dos valores seculares ocidentais dentro de suas comunidades e poderão reagir de forma violenta, levando inclusive ao extremismo, como os diversos casos de terrorismo recentes mostraram.

Assim, temos diversos centros do mundo e diversas periferias, pois cada povo se colocará como sujeito central de seu mundo e verá os demais a partir das lentes de seus valores.

mapa-bandeirantesEm nosso caso Paulista, é apenas natural que vejamos São Paulo como nosso centro. Há ainda fatores especiais que enfatizam tal visão, pois São Paulo foi historicamente a primeira região a ter um grande desenvolvimento industrial e há muito tempo possui um peso fundamental na economia do Brasil. Assim, não só os Paulistas viam São Paulo como um centro, mas também os outros povos e elites políticas do Brasil. Porém seria um erro nos limitarmos a termos São Paulo como um centro apenas econômico e deveríamos passar a olhar também para os valores Paulistas, se quisermos uma reconstrução identitária. Para isso é interessante olharmos para o passado Paulista, o papel civilizacional do movimento das bandeiras e os valores típicos que se espalharam e se instalaram do planalto Paulista para o oeste Brasileiro. Assim, podemos contrastar os diferentes processos civilizacionais que formaram os atuais contornos culturais, econômicos e políticos do Brasil e inserirmos o papel da cultura Paulista nesse quadro, e também dos demais polos culturais dentro do Brasil, assim criamos um ponto de vista e uma visão de mundo Paulista, com a qual nos guiaremos na construção de uma nova nação.

Logo devemos entender nosso lugar no mundo e nos vermos como os sujeitos centrais da nossa história, ou seja, devemos assumir nossa identidade, entender nossos valores e como entendemos nosso mundo a partir deles, porém sem esquecermos que somos apenas um de diversos centros, ou melhor dizendo, polos. Em vez de um mundo unipolar, caminhamos então em direção a um mundo multipolar em que as diversas civilizações têm o seu papel na grande rede mundial. Não podemos nos colocar também numa visão neutra acima de todos os outros povos, pois tão visão implicaria num vazio cognitivo: teríamos que apagar todas as nossas vivências e valores de forma a não sentir nenhuma empatia por um determinado sujeito social, como se fôssemos uma tábula rasa. Por outro lado, poderíamos fazer uma analogia de um povo com um indivíduo egoísta. Um egoísta se colocará sempre no centro do mundo, ignorando os demais sujeitos, ele agirá de forma hostil aos outros porque falha em se colocar no lugar de outras pessoas, assim, ele também possui uma dificuldade de entender seu lugar no mundo e sua identidade, pois um indivíduo sozinho não significa muito sem estar inserido numa sociedade. Na verdade, mesmo os maiores nomes individuais da história só são grandes quando vistos por olhares específicos. Assim, um povo que é extremamente fechado e falha em entender o papel e os valores de demais povos falhará em sobreviver e entender sua identidade, pois uma identidade só tem sentido quando contrastada com outras, de outra forma a identidade não faria sentido, haveria apenas uma massa uniforme e previsível.

multipolar

Portanto, o “mundocentrismo” de cada povo não é nocivo se não levado ao extremo do “egoísmo” ou da unipolaridade, mas é benéfico para se entender o seu lugar no mundo e o seu papel civilizacional. Quem sabe assim não nos libertamos finalmente das amarras de uma ideologia que nos foi imposta que sempre nos coloca numa periferia, num lugar sem importância, para então assumirmos a nossa marcha histórica e ascendermos a níveis maiores de civilização.

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